ARTIGOS

Não conheço ninguém que jamais tenha pensado em simplificar sua vida. Especialmente no trabalho, onde há um grande número de situações consideradas difíceis, todos nós costumamos experimentar momentos em que tudo parece confuso demais, complicado em excesso, estressante além da conta. O curioso é que esse sentimento não depende do nível real de complexidade do trabalho: depende apenas da relação emocional que estabelecemos com ele.
Se entendermos complexidade como o contrário da simplicidade, encontraremos pessoas que se dedicam a trabalhos complexos, e também pessoas que tornam seu trabalho complexo. Há uma sensível diferença entre os dois, pois aqueles que se dedicam a trabalhos complexos podem torná-los simples, enquanto os que complicam podem, na prática, estar realizando uma tarefa simples.
A tendência natural do Homem é a de sofisticar para simplificar. O único problema é que às vezes ele se perde no meio dessa prática, e complica em vez de sofisticar, e acaba se afastando da simplificação.
Como a História é contada através das conquistas, encontramos, por exemplo, no Desfiladeiro de Olduvai, na Tanzânia, evidências de que o Australopithecus sofisticou a fabricação de ferramentas para facilitar sua vida. As primeiras criadas conscientemente foram pedaços de pedra, lascadas de forma a aguçar as pontas. Pronto, estava inaugurada a era da sofisticação a serviço da simplificação. A tecnologia começou há dois milhões de anos.
Depois disso o homem inventou a vasilha para facilitar a coleta de água, a roda para deslocar objetos, e não parou mais. A carroça, o automóvel, o avião, o telefone, a TV. Todos facilitadores. Imagine o computador. Existe alguma coisa mais complexa? E ao mesmo tempo mais facilitadora? Nossa vida se tornou mais simples porque alguém domou a complexidade da microeletrônica.
Simplificar ou complicar, portanto, é uma questão de postura e de ponto de vista.
 
Razão e Emoção
Entre os inúmeros personagens da tragédia grega, encontramos os deuses Apolo e Dionísio. O primeiro regido pela serenidade, pelo intelecto e pela harmonia. O segundo pela paixão, pela inspiração e pelo êxtase. Qual dos dois seria o dominante, na busca da verdade? Pode a lógica suplantar a inspiração, ou a razão considerar-se mais importante que a emoção? Pode a emoção viver solta e independente da razão?
O espírito apolíneo e o espírito dionisíaco pertencem à natureza humana. Quando não aceitamos uma de nossas metades promovemos abalos psíquicos, com conseqüências que podem variar entre leves sintomas de ansiedade e o desastre total da desagregação da personalidade.
E enquanto tentamos harmonizar esses mitos em nós mesmos, vamos convivendo com o paradoxo. Simplicidade e complexidade, faces da mesma moeda.
Todos experimentamos períodos de alta complexidade e até confusão, que nos aproximam da exasperação, pois achamos que não há saída. Como saída sempre há, acabamos colocando ordem no caos e passamos a experimentar uma nova fase, de merecida calmaria. Fase essa que se mostrará ser apenas um período de trégua que damos a nós mesmos, e que se seguirá de um novo tempo de conturbação. Em maior ou menor escala, uma situação de alternância que está presente na vida de todas as pessoas.
No trabalho isso é muito claro. Quando tentamos ser simples, corremos o risco de não conseguir acompanhar os resultados produzidos pela complexidade do mundo moderno. Às vezes tentamos agir complexamente e então perdemos a simplicidade, necessária ao exercício da criatividade e da paz mental. Vivemos na dualidade simples/complexo, como uma sina que nos acompanha por ter, nosso ancestral, cometido algum pecado original.
 
Simples não é simplório
Você já deve ter se perguntado se a simplificação no trabalho pode ser confundida com incompetência. Afinal, o senso comum diz que as pessoas competentes são aquelas que produzem resultados, independentemente das condições que disponham para realizar suas tarefas. Em essência devemos ser o que esperamos de nós mesmos, mas como isso não é nada fácil, invariavelmente somos também o que os outros esperam de nós. Portanto, convém nos atermos ao que é de fato a simplicidade, caso contrário podemos errar a mão.
Uma coisa é entendê-la como ausência de complexidade. Outra é considerá-la a partir da organização possível da complexidade. Quando Henry Ford criou a linha de montagem, foi acusado de estar complicando tudo, pois afinal, estava indo contra o comportamento artesanal que existia desde que o homem passou a fabricar objetos. Hoje aceitamos que esse método simplificou e agilizou a produção, aumentando consideravelmente a competência da fábrica. Os processos industriais atualmente são mais humanos e usam mais tecnologia, mas ainda são baseados no velho modelo de Ford.
Se na busca da simplicidade apenas nos afastarmos da complexidade, estaremos, sim, nos aproximando da simploriedade. Tudo bem, mentes simplórias existem. Não são melhores ou piores, apenas singulares: pessoas incapazes de lidar com a sofisticação dos processos modernos de trabalho e de produção do que quer que seja. Se você está decidido a morar e trabalhar numa cidade, portanto, não parece razoável perseguir a simplicidade apenas fugindo da complexidade.
Não esqueça que a natureza do ser humano é complexa – biológica, física e psicologicamente. Esse caos, contudo, é só aparência. Existe aí uma busca a organização como um estado natural que, ao ser observado, mostra uma incrível simplicidade. Ou seja, a organização já está em nós, nos faz vivos, é essencial.
No trabalho ou em qualquer área de nossas vidas, criar um ambiente em que todas as variáveis são consideradas e que as contingências são respeitadas é sinal de inteligência. Pensar antes de agir economiza energia. Mental e física. O que diferencia os homens dos animais é o pensamento. E um dos aspectos que diferenciam os homens entre si é a qualidade desse pensamento.
 
O que dá para fazer
O que dá para fazer é organizar a vida. A agenda, às vezes tão menosprezada, tem se revelado a ferramenta mais importante e útil de quem busca simplificar sua rotina. Ela não aprisiona, liberta. É a vida no papel, consagrada pela escrita, pelo desenho. Se você resolver sua agenda com inteligência e sentimentos verdadeiros, resolverá também uma porção de coisas na sua vida. Veja o que diz o poeta:
 
Minha agenda, livro da minha vida,
Mais que um bloco de notas.
Confidente de sonhos e desejos,
Quase todos confessáveis…
 
Mais que simples sonhar,
Planos para realizar.
A lógica e a poesia,
Trocando figurinhas na esquina da vida.
 
Pare um pouco para pensar. Uma agenda organizada, com compromissos de encontros, reuniões, prazos de entrega, contas a pagar e a receber, pode ser o melhor aliado da eficiência. Crie seu estilo próprio de usar a agenda. Com ícones que definem, por exemplo, o grau de importância, de dificuldade, de urgência, etc.
Experimente fazer uma planilha (a eletrônica é melhor) com as tarefas comuns na primeira coluna, e os dias da semana nas demais. Gaste um tempinho no final do dia, para preencher o tempo que você utilizou para cada tarefa naquele dia. Você vai se surpreender com o número de horas mal utilizadas ao final de uma semana.
A agenda usada como ferramenta de apoio, extensão do pensamento, amplificadora da inteligência, permite que você tome algumas medidas de ordem prática para simplificar sua vida, como:
– Fazer primeiro o que é mais importante, porque o prejuízo provocado por uma possível procrastinação será reduzido.
– Colocar na frente as tarefas menos agradáveis impede a dissipação da energia mental, pois quando as deixamos para depois não conseguimos nos desligar delas.
– Se dedicarmos mais tempo a fazer o que é importante, mas não é urgente, quando for urgente já estará feito.
– Tarefas de execução desagradável dão resultados agradáveis, desde que realizadas com determinação, nos impregnando de uma sensação de alívio.
 
O fio da meada
Essas sugestões podem, sim, ajudar a simplificar nosso dia-a-dia. Há outras dicas úteis nesta e em muitas revistas e, sem esforço, é possível encontrar livros e livros sobre o tema. Na verdade, são tantos compêndios, tantas listas do o-que-fazer-para-simplificar-o-trabalho, que temos a impressão de que jamais daremos conta de tudo. E não daremos mesmo. Portanto, a menos que compreendamos, cada um, a própria simplicidade, tanto quanto a própria complexidade, corremos o risco de passar a vida trocando um hábito por outro, uma atitude por outra, num processo eterno de experimentação.
O fio da (nossa) meada está na primeira metade do século 17, quando o matemático e filósofo francês René Descartes criou a lógica cartesiana (nomenclatura que deriva de seu próprio nome) e ofereceu à humanidade uma maneira simples e lógica de organização: colocando duas grandezas em um par de coordenadas, teremos uma visão de sua relação e da conseqüência de suas coincidências. Descartes pôs ordem na casa e explicou que nos aproximamos da simplificação à medida que caminhamos pelo terreno da organização. O pensamento humano sofreu uma considerável mutação.
Do pensamento cartesiano nasceu a nova ciência, tendo influenciado a Newton, que consagrando o método científico fez todas aquelas notáveis descobertas sobre a mecânica terrestre e celeste. Surgiu daí a física moderna, que comandou o pensamento ocidental até o século 20, e depois a era dos cientistas-filósofos, entre eles Albert Einstein e Max Planck. Atribui-se a esses dois a criação do pensamento quântico-relativístico.
A física quântica, ou física atômica, modifica o pensamento da física clássica, cartesiana, newtoniana, pois mostra que no nível sub-atômico – ou seja, dentro do átomo – matéria e energia se confundem. É impossível conhecer, ao mesmo tempo, a localização e a velocidade de uma partícula. Elas não vão de um ponto a outro linearmente, temporalmente. Têm natureza de onda – desaparecem aqui para aparecer ali. O que então existe entre um ponto e outro? Nada.
O mais admirável, senão assombroso, é que as partículas subatômicas reagem à observação. Você não leu errado: as mais ínfimas manifestações da matéria, das quais nós e tudo que existe somos feitos, comportam-se de maneira diferente quando os cientistas se debruçam sobre elas.
Pronto. Todo o determinismo definido pela física clássica foi transformado em relativismo e probabilismo pela física moderna. Nada é definitivo. Tudo depende – mas tudo mesmo.
Descobrimos então que a simplicidade ou complexidade de nossa vida é relativa. Ela depende da referência que utilizarmos. Minha vida é simples ou complicada em relação ao quê? Em relação à vida que eu tinha antes, à vida de outra pessoa ou à minha capacidade de conviver com o que é complexo?
As respostas estão dentro de cada um de nós. Simplesmente observe-se.
O mérito da observação é a percepção.
O mérito da reflexão é conferir verdade à percepção.
O mérito de perseguir a verdade é construir conhecimento.
O mérito do conhecimento é conduzir as ações corretamente.
O mérito da ação correta é construir um mundo
bom,verdadeiro, belo e útil.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.

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