ARTIGOS

Era a história de Cecília, uma garçonete de New Jersey que se arrebentava de trabalhar, durante a depressão americana, para sustentar um marido vagabundo e violento, o Monk. A única diversão que ela tinha era ir ao cinema da cidade, onde costumava assistir ao mesmo filme várias vezes, pois queria demorar a chegar em casa todos os dias.
Um dia, assistindo pela quinta vez A Rosa Púrpura do Cairo (que também é o nome do filme que estou contando), acontece o improvável: Tom Baxter, o herói da história, olha para a platéia e pergunta objetivamente à Cecília por que ela estava ali de novo. A partir desse momento, a trama muda e passa a acontecer uma interação entre os personagens do filme e os da vida real (ou a vida real tal como aparece no filme, sob nosso ponto de vista). Bem, como se diz, a ficção mistura-se à realidade e cria-se uma imensa confusão. O filme é do Woody Allen e antecipa, em pelo menos uma década, uma discussão que surge em outro filme, bem mais recente: Matrix.
Ambos os filmes tratam de um tema com o qual a humanidade sempre esteve envolvida: a percepção da realidade. Em A Rosa Púrpura…, o autor põe o dedo na ferida da confusão criada pela linha muito tênue que separa o que é ficção do que é realidade. A pergunta não é se, mas quanto de nossa mente se esconde na ficção para fugir da realidade quando ela é dura demais.
Quanto criamos de ficção em nossos sonhos, nas relações, nas religiões, nos ídolos da mídia? E quem teria coragem de condenar os que passam da linha que separa o real do imaginário, considerando que esse passo às vezes é necessário para a conservação da integridade mental? Mas o que fazem os terapeutas se não modificar a percepção da realidade, ensinando o paciente a lidar com ela? (Perguntas do século XXI, mas de todos os anteriores também.)
Em Matrix a história é a mesma, só que a mistura se faz entre o mundo real e o mundo virtual dos computadores. Matrix é o nome de uma realidade virtual que controla a humanidade, para que ninguém se oponha ao poder das máquinas. Só há um pequeno grupo de pessoas em todo o mundo que consegue se conservar a salvo do poder da tecnologia dominante. E eles acreditam que um jovem hacker chamado Neo é uma espécie de herói que desconhece sua própria força, o único capaz de restabelecer o poder dos humanos na Terra, submetendo as máquinas à sua vontade e serviço novamente. O resultado é um filme cheio de efeitos especiais e de difícil entendimento. As cenas se sucedem e nos fascinam.
Os dois filmes tratam da mesma questão, que envolve, acima de tudo, o tal do inconsciente coletivo. A espécie humana, com as características atuais, não tem mais do que trinta e cinco mil anos de evolução. Vilas e cidades, por exemplo, começaram a surgir há apenas 12 mil anos. De lá pra cá, uma coisa não mudou e outra mudou muito. O que não mudou foi a capacidade do homem em criar modelos comportamentais, habituar-se a eles, resistir à mudança, depois terminar por aceitar que tem mesmo de mudar de comportamento para acompanhar os outros da espécie, acomodando-se em um novo modelo por algum tempo. E o que mudou, e muito, foi a velocidade das transformações. O que mudava em milênios agora muda em anos, ou ainda mais rápido em alguns casos.
Em geral, temos sido bombardeados pelo lançamento constante de novidades tecnológicas. A maioria delas, se pararmos para pensar, é inteiramente dispensável. Evidentemente, há pessoas bastante bem pagas que, se valendo daquela característica de nossa espécie – a de mudar o comportamento para acompanhar os outros -, cuidam para que incorporemos esta ou aquela “maravilha” em nosso arsenal de utilidades desnecessárias. Através de campanhas publicitárias e ações de merchandising, entre várias outras técnicas, acabam nos convencendo muito rapidamente a comprar seja lá o que for, ou mesmo a adquirir hábitos com os quais, em outros tempos, nem sonharíamos.
Conheço um monte de gente, por exemplo, que usa o elevador para subir apenas um andar, e depois investe um bom tempo e algum dinheiro na máquina de step – aquela que imita o saudável movimento de subir escadas. E tantas outras que usam o telefone para falar com alguém que está apenas a uma deliciosa caminhada de distância. O telefone celular, então, é um signo de nosso tempo: quase todos nós, inclusive os menos favorecidos, cedemos à idéia de que temos de estar acessíveis em qualquer lugar, a qualquer tempo. Claro, podemos desligar esses dispositivos quando quisermos, num apertar de botão ou, ainda mais simples, com um comando de voz. Mas, a exemplo da TV, que também possui um liga-desliga, o que temos é uma invasão de celulares, o nosso e o dos outros, tomando conta da realidade – no elevador, no restaurante, no cinema, no teatro, no avião, na praia ou durante uma caminhada na trilha.
Não quero parecer ranzinza. Os telefones celulares podem ser úteis, sem dúvida, mas essa e outras centenas de tecnologias modernas estão colaborando para elevar nosso nível de distração. Distração em relação a quê? Em relação a nós mesmos e nossas necessidades essenciais, sobre as quais não vou discorrer aqui – esta revista é um manancial delas, basta folheá-la.
Na década de 1940, o escritor francês René Barjavel escreveu um livro tão fantástico quanto desconhecido chamado “A Volta à Natureza”. Descrevia nele uma sociedade evoluída e super dependente da energia elétrica. Em um dado momento, sem que o autor se preocupe em explicar por que, a grande fonte de energia entra em colapso e interrompe o funcionamento. O que se vê daí em diante é uma animalização completa das pessoas, que têm de reaprender a viver sem a tecnologia mais importante até então. É uma obra espetacular, não sobre energia, mas sobre pessoas. Torna-se clara a dependência do homem à máquina. Poucos sobrevivem, e estes têm a responsabilidade de começar a reconstrução do mundo. Mas como, sem o apoio de ferramentas modernas? Se esse livro tivesse sido escrito a partir da década de noventa, com certeza o autor teria substituído eletricidade por computador.
Muito já se escreveu sobre a influência que recebemos do computador e sobre o grau de dependência que criamos de suas facilidades. Já se disse de tudo, desde que ele veio para resolver problemas que ele mesmo criou, até que, como na mitologia, a criatura superou o criador e terminou por devorá-lo. Digressões à parte, temos que encarar a realidade. O computador está presente em nossas vidas, mesmo quando nem sequer possuímos um. Não conseguimos mais viver sem ele. Em breve, muito mais do que hoje, haverá chips em praticamente tudo, do relógio ao sapato que usamos, permitindo que o fabricante (ou quem quer que seja) saiba onde, como e quando o consumidor usa e dispensa o produto. Nossas geladeiras inteligentes avisarão ao supermercado sobre o que está faltando em casa, nossa cafeteira entrará em ação se estivermos virando a esquina depois de mais um dia de trabalho. Se tudo isso é bom ou mau, não dá para dizer: dependerá do propósito de cada um.
O respeitado futurólogo americano John Naisbitt diz que chegamos a um tempo em que as soluções se antecipam às necessidades. Ele escreveu um livro sobre as relações do homem com a tecnologia chamado High Tech High Touch (lançado no Brasil com esse nome mesmo, pela Editora Cultrix) e que virou best seller mundial. A obra define o perfil do homem moderno e das alegrias e apreensões ao lidar com o poder da alta tecnologia que nos cerca, de modo tão forte e tão constante. Naisbitt diz que a tecnologia é parte da própria evolução humana, e que negá-la seria negar nossa própria capacidade de evoluir. Seria o mesmo que contrariar Darwin e a própria natureza. Alerta, no entanto, que essa parte de nossa evolução não pode estar apartada das demais, que formam os quatro pilares da construção do pensamento humano: a filosofia, a ciência, a arte e a espiritualidade.
Mas, como é mais fácil encontrarmos soluções maniqueístas, em relação ao decantado “poder das máquinas”, costumamos resumir as alternativas a duas:
a. o homem deveria rebelar-se contra as máquinas antes que seja tarde, diminuindo a influência dos computadores, retomando o controle sobre seu destino e voltar a ter uma vida mais natural, mais primitiva e mais feliz;
b. uma vez que o domínio dos computadores é inevitável, vamos relaxar e aceitar a situação, até aproveitando as benesses da modernidade, mesmo que isso signifique pagarmos o preço da massificação cultural e da despersonalização.
O maniqueísmo não funciona. Até Dante Alighieri percebeu isso ao colocar, em sua Divina Comédia, uma alternativa entre o céu e o inferno. É claro que há a terceira via, a do convívio harmonioso, confortável, em que o homem continua sendo homem e a máquina continua sendo máquina. Isaac Asimov, quando criou as leis da robótica, estava, na verdade, criando um código de ética para mediar a relação homem/máquina. Adaptadas à realidade atual, ficariam assim:
1ª. Lei: O computador deve preservar a integridade e a supremacia do homem;
2ª. Lei: O computador deve servir ao homem desde que isso não afete a primeira Lei;
3ª. Lei: O computador deve preservar-se e evoluir, desde que isso não afete as duas primeiras Leis.
O Homem Bicentenário, interpretado por Robin Williams, conta a saga de um robô doméstico que, em duzentos anos vai trocando seus componentes eletro-mecânicos por tecidos humanos sintéticos, até virar homem. Casa-se, envelhece, goza, sofre, e morre. O medo de muitos é que possa acontecer o processo inverso, e venhamos a ser, nós humanos, substituídos em todo ou em parte, por frutos da tecnologia cibernética, ou, pior, tenhamos o cérebro governado por inteligências artificiais alienígenas.
Ora, quando, há milênios, inventamos a vasilha, o homem continuou sendo homem, a vasilha continuou sendo vasilha, e o homem ganhou praticidade e conforto para tomar água sem ter que enfiar a cara no rio. Quando, há séculos domesticamos o cavalo, cada um continuou sendo o que era, mas criamos uma dobradinha muito mais eficiente no transporte, no lazer e na guerra. Quando, há décadas inventamos o automóvel, continuamos sendo homens, só que agora, além de duas pernas, tínhamos também quatro rodas.
Com o computador, a história é a mesma, só que toca em uma parte mais sensível de nosso ser: o cérebro. Por outro lado, temos que lembrar que o computador é uma conseqüência da era da informação e não o contrário. No mundo pós-guerra a informação passou a ser um bem muito precioso, por isso os sistemas e a tecnologia da informação criados pelos Aliados e pelo Eixo durante o conflito. É gritante a diferença cultural e comportamental antes e depois da virada dos anos 50, pela influência desse acontecimento.
No Brasil, por exemplo, exatamente em 1950, são fundadas duas empresas símbolo da era da informação que começava: a Editora Abril e a TV Tupi. Se, até então, a informação era veiculada por jornais e pelo rádio, era pouca e não influenciava tanto assim aquelas gerações, após o surgimento das revistas, da televisão, e o aumento da impressão de livros, todos passamos a ser assediados e até assaltados pela informação. Quantas revistas existem hoje em uma banca de bom tamanho? Quantos títulos de livros em quantas livrarias. Quantos canais de TV aberta ou a cabo? Informação em quantidade maior do que o volume que podemos absorver, processar, acumular, comprar e até carregar.
Distraídos, distantes de nós mesmos, perdemos em grande medida a capacidade de discernimento: temos muita informação disponível, mas dificuldade para encontrar conhecimento. Tendemos a acreditar em fenômenos criados ou exageradamente propagados pela mídia e sua alta tecnologia – a violência, a superstarização de personagens, a necessidade de estarmos sempre conectados, velozes etc.
Agente crucial dessa nova realidade, podemos entender o computador como nada mais do que uma maquininha que tem nos ajudado a enfrentar as características da era da informação. Até aí, tudo bem. Mas, como coloca John Naisbitt, inteligentemente, estamos cultuando a tecnologia, em vez de discutirmos a respeito de seu propósito; estamos perdendo a noção entre os produtos verdadeiros e os falsificados; estamos, inclusive, cada vez mais vulneráveis à indústria das soluções fáceis, que promete e promete tornar nossas vidas mais simples e sossegadas.
Estamos, afinal, intoxicados pela tecnologia? Devemos procurar um elixir desintoxicante, talvez na natureza, quem sabe no misticismo? Ou devemos como profilaxia, aumentar nossa resistência à intoxicação, criando anticorpos cognitivos que impeçam a doença, mas conservem o benefício? Não ter e precisar, é problema. Ter e não usar é burrice. Não ter para não usar, também. Qual a saída?
Lembro-me de um professor de farmacologia que disse, ao abrir sua primeira aula: “A diferença entre o veneno e o remédio está na dose”. Sábio conselho do velho mestre. A questão é essa: a dose. Qualquer coisa em excesso é nociva. Muito exercício, muito sexo, muito trabalho, muito lazer, muito tudo.
O livro de John Naisbitt, High Tech High Touch, nos explica como retirar da alta tecnologia todas as suas vantagens e negar seus defeitos. Recomenda o uso adequado da máquina sem abandonar, nunca, nossa condição humana, que privilegia as emoções, as relações, a sensibilidade, a capacidade de rir e chorar. Lembra que, primordialmente, temos de construir nossa vida a partir de nosso pensamento e de nossas emoções, sempre de modo dosado e complementar. E acaba por produzir uma mensagem intrigante: temos o direito de produzir o útil sem esquecer do verdadeiro, e de construir o belo sem abandonar o bom. Então continuaremos a ser o que sempre fomos, pessoas, com desejos, medos, forças, inseguranças. E que a máquina será apenas um amplificador de todas essas características, que são, afinal, as que nos fazem homens e mulheres.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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