ARTIGOS

Primeira história. Desembarquei no aeroporto em um dia particularmente atribulado. Parecia uma convenção de viajantes costumeiros acrescida dos esporádicos. A fila dos táxis lembrava um dragão chinês de mau humor, então resolvi, contrariando meus princípios, tomar um táxi “não credenciado” na calçada de cima. Péssima ideia. Encaminhando-se para a saída do aeroporto, o motorista mal barbeado teve uma atitude de ogro profissional: abriu sua janela e, com toda a naturalidade, arremessou uma garrafa plástica sobre o jardim.

–       O que você fez?! – perguntei, aturdido, como se não soubesse.

–       Nada… só joguei fora uma garrafa – respondeu o ogro, que parecia estar ficando verde.

–       Como assim? Pare o carro! volte lá e recolha a garrafa – ordenei, mudando para o verde também.

O que se seguiu foi uma mistura de Deu a louca no mundo com Velozes e furiosos, em que o rapaz não sabia se me ignorava e seguia ou obedecia ao passageiro ensandecido que, vai ver, era algum tipo de autoridade. Acabou optando pela segunda, talvez por medo. Quando voltou ao carro tratei de lhe mostrar o absurdo de sua atitude, falei sobre o impacto do lixo nos problemas da cidade, de sustentabilidade, da responsabilidade de cada um e assim por diante. Foi quando ele me interrompeu e me esclareceu seu pensamento:

–       Mas doutor, o que adianta eu não fazer se todo mundo faz?

Segunda história. Moro em um “bairro nobre” de São Paulo, para usar a classificação da imprensa. Meu vizinhos são pessoas de bom nível cultural, com quem mantenho bom relacionamento, sem exceções. O que é uma benção, pois, como diz aquela maldição árabe que se reserva só aos grandes desafetos: “Que Alá te dê um mau vizinho”. Não imagino nada pior…

Só que naquele dia algo diferente aconteceu. Eu estava no elevador com um rapaz (quarentão) que mora sozinho, e ambos líamos um comunicado do síndico que pedia aos condôminos que economizassem água, pois a cidade toda estava enfrentando a possibilidade de racionamento pela falta de chuvas. Comentei com meu colega da viagem vertical:

–       Vou começar a tomar banhos rápidos, apesar de adorar o chuveiro.

–       No meu caso – argumentou ele – isso não é necessário, pois moro sozinho e o impacto de meus banhos é pequeno. Além disso, se todo o prédio colaborar, não serão meus banhos que irão fazer a diferença.

O  que há de comum entre essas duas histórias? O que há é fato de que as pessoas envolvidas tomaram suas decisões considerando o comportamento que elas supunham que as outras teriam. O raciocínio do motorista foi: “não adianta eu não fazer porque todo mundo vai continuar fazendo”. O do vizinho: “eu não preciso fazer porque todo mundo vai fazer”. Embora opostos, esses dois raciocínios são semelhantes, pois ambos justificam sua ação (ou a falta dela) pelo comportamento do coletivo.

Esse pensamento individual e egoísta tem sua lógica, mas é altamente nocivo por um motivo: se todos pensarem assim teremos um comportamento padrão. Em matemática esse princípio é conhecido como a Teoria dos Jogos, e tem larga aplicação na economia, sociologia, estratégia militar, ciências políticas e até no estudo do evolucionismo darwiniano. A verdade é que as pessoas que compõem um agrupamento humano de qualquer natureza, a começar pela sociedade em si, aplicam os princípios desse jogo o tempo todo, sem perceber. E agora?

Um mundo consciente

Tive a oportunidade rara de participar da Rio+20 como debatedor de um painel sobre o “trabalho verde”, que discutiu o surgimento tanto das tarefas específicas voltadas à sustentabilidade quanto ao impacto de qualquer trabalhador na preservação (ou destruição) do planeta.

Como seria o último debatedor a falar, fui anotando as considerações de todas as pessoas que me antecederam, entre eles empresários e especialistas em recursos humanos, todos experientes, bem informados e engajados. O que mais me chamou a atenção, e que orientou a minha fala, foi a repetição de uma palavra: conscientização.

De fato, não há como negar que só temos uma chance de salvar o planeta, e esta passa pela conscientização das pessoas em geral, em todos os ambientes, pois é a soma das atitudes que poderá promover alguma mudança. E é aí que surge a grande dúvida: como é que se faz isso, exatamente? Como fazer com que cada pessoa, cada um mesmo, seja transeunte, operário, dona de casa, executivo ou motorista de taxi cuide de seu pequeno latifúndio e, principalmente do espaço comum? Como acabar com a maléfica ideia do “faço, mas quem não faz”?

Freud disse que a saída para a miséria humana seria o aumento da consciência (“É necessário abrir a janela da alma…”), e deu sua (imensa) contribuição, a psicanálise. OK, mas como ele mesmo admitiu, ela estaria destinada para poucos. Não creio, por exemplo, que haja muitos motoristas de taxi psicanalisados. Mas nem tudo está perdido, pois o aumento da consciência sobre a qual se falou no debate é a que deriva de outra fonte: da educação.

Aliás, em minha modesta opinião, é exatamente para isso que serve a educação. Para aumentar a lucidez, a consciência, a capacidade de análise e de julgamento do jovem. Infelizmente confundimos educar com passar conteúdo. O estudante será aprovado se for bem na prova, que nada mais é do que um método capaz de avaliar o quando do conteúdo aquele jovem foi capaz de registrar em sua memória. Não, o conhecimento não é o fim de um processo de educação, é o meio. O fim é o pensamento e, depois dele, o comportamento.

Quando falamos em conscientização, estamos, na prática, falando sobre elevar a condição do humano através de seu posicionamento como agente do destino, seu, dos outros e do mundo. Conscientizar não é só abandonar a ignorância, é mais que isso, é integrar-se na construção do coletivo digno e edificante. Somos sete bilhões e não paramos de aumentar. Sete bilhões de corpos que têm necessidades e desejos e que esperam que o planeta supra sem reclamar.

O problema é que a ilimitada ambição humana vive em um planetinha de recursos limitados, e essa conta não fecha.

Um mundo eficiente

Por definição, ser eficiente é obter mais resultado com menos recursos. Os carrões de antigamente eram charmosos, mas ineficientes. Gastavam um litro de gasolina a cada quatro quilômetros percorridos, carregando peso em excesso, com pouca segurança e conforto questionável. A evolução da mecânica, da eletrônica e do design já permite que  um carro híbrido rode 25 quilómetros com o mesmo litro de combustível fóssil. Estamos no caminho. Já convivemos com fontes alternativas de energia e com novos materiais não poluentes, ou menos poluentes. O túnel tem um luz lá no fim.

Só que, como sempre foi, a evolução da tecnologia é maior e mais veloz que a evolução da consciência humana. Quando o escritor de ficção cientifica Isaac Asimov foi questionado por um jornalista sobre o fato de que as pessoas de seus romances, ambientados em um evoluidíssimo século XXX tinham o mesmo comportamento das de agora, ele respondeu “as pessoas mudam mais devagar que a ciência”, e calou seus críticos.

A Rio+20 terminou com a redação de um documento chamado O futuro que queremos, que teve igual proporção de críticas e de elogios. Acusado pela falta de ambição por alguns e enaltecido pela ousadia por outros, ele não passa de um documento. Importante e necessário, mas só isso, um documento (para saber mais entre em www.rio+vinte.org). E que se não for transformado em informação disseminada, planos de ação, esforço coletivo, normas claras, estratégia empresarial, educação e, acima de tudo, conscientização, continuará sendo um documento bem encadernado a ser revisto na Rio+40.

Meu sonho é viver em um mundo em que o motorista de taxi saiba dirigir, conheça bem a cidade e que também tenha consciência planetária. É pedir demais? Não acho. O problema é que esse mundo só vai existir quando cada pessoa que o desejar se der conta que suas menores ações é que são as grandes responsáveis por sua construção.

Sei, sei, a saída está na conscientização. Já ouvi isso antes. Então espere um pouco, caro leitor, vou até a cozinha apagar as luzes. Como as lâmpadas não pensam, precisamos pensar por elas, e tem dois jeitos: pela consciência e pela ciência. Ambas resultado da qualidade que nos faz humanos, a inteligência. Só que a inteligência é como a fissão nuclear e a internet, pode produzir o bem ou o mal, a depender da consciência (de novo…).

Uma saída possível está no livro Educação, um tesouro a descobrir, que na verdade é o relatório da Comissão para a educação do século XXI da UNESCO, que foi liderado pelo economista francês Jacques Delors. Nele há uma proposta admirável, que pode, e deve, se aplicada em todos os ambientes de desenvolvimento humano, e eles são muitos: as escolas, naturalmente, mas também as empresas, os clubes, os condomínios, os espaços públicos, as famílias.

A proposta: precisamos ensinar os jovens a aprender quatro coisas. Aprender a conhecer, que equivale a aumentar o conhecimento, que é o objeto da educação clássica, mas também aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Fazer coisas úteis com o conhecimento adquirido, perceber a imensa interdependência entre os seres humanos e destes com a Natureza e ser alguém que conduz sua vida sem abrir mão dos valores, aqueles que, se não existissem, não passaríamos de símios inteligentes.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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O futuro que queremos

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