ARTIGOS

A cena foi bizarra. Éramos três amigos que decidem tomar um café no balcão de uma padaria. Uma cena tipicamente brasileira e urbana. “Três cafezinhos, por favor” – um de nós disse para a moça do balcão e fomos prontamente atendidos. Delícia. Nada contra o expresso, mas um café de coador, passado na hora, é insuperável. Sorvemos o forte líquido negro, quente e ligeiramente açucarado com prazer, naquele dia frio de Curitiba.
Mas, você deve estar se perguntando, o que há de bizarro em três amigos tomarem um cafezinho no balcão de uma simples padaria? Nada, até aí, mas espere um pouco. O estranho aconteceu na hora de pagar. Passei a comanda para a funcionária do caixa, uma jovem sorridente, ao mesmo tempo que informei, como que para facilitar sua vida: “Foram três cafezinhos”. Foi a deixa para que a moça estendesse o braço e pegasse uma calculadora, daquelas antigas grandonas, digitasse alguns algarismos, antes de me dizer: “São seis reais, senhor”.
Fiquei alguns segundos sem reação, pois estava refletindo sobre o que tinha acabado de acontecer. Aparentemente não houve nada de anormal, mas vamos olhar mais de perto. Se a conta foi de seis reais, isso quer dizer que cada café custou dois reais, uma vez que éramos três. Sim, seis é múltiplo de dois, e fazer qualquer conta a partir do número dois é de uma simplicidade abissal. O que pode ser mais simples do que calcular um múltiplo de dois? Principalmente considerando que eram apenas três os cafés servidos? Mesmo assim a funcionária do caixa, pretensamente acostumada a lidar com cálculos para poder cobrar adequadamente, lançou mão de uma calculadora eletrônica para chegar ao valor total da conta.
Naquele momento, não me contive e perguntei: “Você precisa de uma calculadora para calcular quanto custam três cafezinhos de dois reais?”. Ela me olhou com ar de que não havia entendido a pergunta e se limitou a balançar a cabeça positivamente. É claro que ela tem o direito de fazer seu trabalho da maneira que melhor lhe parece, e eu não tenho que me meter, principalmente porque ela estava cobrando certo, com total segurança. Nada errado nisso. Como cliente, eu estava satisfeito, mas como professor, como pai, como cidadão brasileiro, confesso que me incomoda o fato de alguém não conseguir multiplicar dois por três de cabeça. É ou não é bizarro?
A discussão posterior com meus amigos (claro que falamos sobre fato) levantou duas questões. O nível de educação básica no Brasil, que é sofrível, foi a primeira questão. A segunda foi a relação homem/máquina.  Esta é um discussão tipicamente pós-moderna – até que ponto o uso da tecnologia pode emburrecer o homem por assumir boa parte de suas tarefas cognitivas? Será que ao usar uma calculadora, para ficar no exemplo recente, estamos desaprendendo a fazer contas? O editor de textos do computador, para nós, que escrevemos, estaria diminuindo a capacidade de escrever à mão, e nossa letra estaria ficando cada vez mais feia e incompreensível? Pessoalmente, acredito que minha caligrafia, que nunca foi grande coisa, está ficando pior, sim.
Pois é, desde que Larmarck enunciou a Lei do Uso e Desuso, lá no século XVII, sabemos que nosso corpo, incluindo aí o cérebro, se beneficia e se fortalece pelo uso constante. Músculos crescem, se tonificam e ficam fortes pela musculação. Da mesma forma, o cérebro melhora sua capacidade cognitiva pelo uso intensivo do raciocínio lógico. Não é por outro motivo que o jogo de xadrez é considerado, sim, um esporte.
Estudar, ler, escrever, jogar, fazer palavras cruzadas, praticar esportes, são maneiras de estimular o funcionamento do cérebro e aumentar sua capacidade funcional. Não fazer nada disso provoca o efeito contrário e a pessoa vai perdendo a capacidade de resolver os dilemas básicos do cotidiano. Esta é a lógica que condena o uso da tecnologia que pensa por nós.
O próprio fundador do Waze, o israelense Uri Levine, em entrevista recente afirmou que as pessoas não precisam mais pensar para escolher as melhores rotas entre o ponto onde estão e aquele para o qual se dirigem – o gps de seu celular vai fazer isso por você. Portanto, não pense, caro motorista, apenas aperte o cinto e aproveite a viagem. Não faltaram criticas a esse comentário, claro. Estaria ele certo? Estaríamos nós sendo gradualmente substituídos por robôs miniaturizados? Haveria um complô mundial para nos tornar dependentes das máquinas a tal ponto de não conseguirmos mais sobreviver sem elas? Onde está o cérebro vil que controla tudo isso?
Temas da ficção cientifica que passaram a fazer parte de nossa vida real. No filme 2001: uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick coloca na tela a disputa entre o capitão David Bowman e o computador HAL 9000 pelo controle da nave espacial. No Eu, Robô, Will Smith protagoniza o detetive Spooner, que desconfia que o suicídio de um cientista na verdade foi um assassinato, e o suspeito seria o robô Sonny, contrariando as leis da robótica, pelas quais um robô jamais poderia ferir um ser humano. Estariam, afinal, as máquinas se voltando contra seus criadores? Seria este um tema só da ficção, ou na prática, de alguma forma, as máquinas nos prejudicam, pois nos tornam dependentes delas?
Muita calma nessa hora. É claro que a tecnologia, especialmente a informática, com seus maravilhosos laptops, tablets e smartphones, transformaram para melhor a vida do homem moderno. Hoje somos mais informados e velozes, tomamos decisões com mais segurança, delegamos tarefas que nos ocupariam tempo, e assim podemos nos dedicar a outras coisas, inclusive o lazer. Poderíamos viver no século XXI sem tudo isso? Certamente que sim, mas sem o mesmo grau de integração na sociedade moderna a que pertencemos. O que não dá é para emburrecer. Deixamos de fazer trabalhos físicos e começamos a frequentar a academia, pelo simples fato de que o corpo precisa fazer força e manter-se em movimento. Senão atrofia. O cérebro é igual. Se não for convenientemente desafiado, atrofia também.
Quando Arquimedes de Siracusa, no século II a.C. fez seus incríveis cálculos matemáticos usando apenas o cérebro, entre outras coisas, explicou a importância de uma alavanca. “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo”, teria dito ele. Hoje, a calculadora da moça do caixa, o HAL 9000 do Kubrick ou o laptop em que escrevo este texto nada mais são do que as alavancas do Arquimedes. Pessoalmente, pretendo usar a tecnologia cada vez mais, mas não para que ela me substitua, e sim para que me ajude. A alavanca não dispensa o braço. Apenas o ajuda a ser mais forte, a levantar mais peso, a realizar mais. O que não podemos, definitivamente, é confundir a alavanca com o braço. Só isso.
 
Eugenio Mussak escreve para Vida Simples, sempre em seu laptop, às vezes com os pés descalços.    
 

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A alavanca e o braço

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