ARTIGOS

– Tudo o que merece ser feito, merece ser bem feito!
Eu levei um tempo para entender a frase acima. Os cérebros infantis, como o meu naquela época, em que eu ainda nem tinha barba, mas já me achava um homem feito, demoram um pouco para entender algumas afirmações. Na verdade, a dificuldade não está em entender o que foi dito, mas por que foi dito, uma vez que parece óbvio ou improcedente.
Eu estava em meu primeiro emprego, na verdade, era estagiário de um escritório de projetos, enquanto cursava o ensino médio. Minha preocupação na ocasião era sobre que faculdade cursar, e oscilava entre medicina e engenharia. Me sentia atraído pelo humanismo da medicina na mesma intensidade que gostava da exatidão dos cálculos. Entre as duas opções havia ainda a arquitetura, que abria espaço para a criatividade, e tinha muito mais a ver, achava eu, com a possibilidade de levar felicidade às pessoas, através de projetos belos e funcionais.
Por isso o estágio, que se mostrou muito útil, por ter me ensinado muito, e, principalmente, por ter mostrado que minha relação com o desenho nunca seria fácil, por um único motivo: eu não tinha habilidade suficiente. Até hoje não consigo desenhar um retângulo razoável, quanto mais uma casa inteira. Numa época em que os desenhos todos eram feitos em pranchetas, com papel vegetal, esquadros, compassos, transferidores, lápis e borracha, antes de passar para o nanquim. Tempos heroicos aqueles, em que não havia Autocads, projetos em 3 dimensões, e todas as fantásticas facilidades que chegaram junto com os computadores.
E lá estava eu, dando acabamento ao projeto preliminar que o arquiteto apresentaria para o cliente em alguns dias. A mim cabia algo muito simples: pintar os diferentes ambientes na planta-baixa, com lápis de várias cores, criando uma apresentação melhor do que o simples lápis preto sobre o papel branco. Eu devia passar de um ambiente para outro, contíguo, usando a lógica do degradê, criando uma passagem suave de uma cor para outra. Nada de ir direto do vermelho para o azul por exemplo. Era preciso encontrar uma cor intermediária, uma composição harmônica, gradual, agradável, verdadeiramente bela. Algo como sair do vermelho para o laranja, depois para o rosa, antes de chegar ao amarelo, ao ouro, ao verde musgo, e assim por diante, antes de azular. Coisas da estética de uma época.
Não era um trabalho difícil, mas dependia, claro de alguma paciência, uma boa dose de senso estético e, acima de tudo, de muito capricho. E foi nesse terceiro item que o jovem estagiário-cheio-de-planos-e-pressa, pisou na bola. No fundo, pensava eu, para que tanto cuidado com um projeto apenas preliminar? Certamente o cliente, e o próprio arquiteto, ainda rabiscariam em cima, fazendo mudanças ou anotações. Tanto trabalho para apenas uma olhada rápida? Vou pintar rápido esta planta, pois tenho mais o que fazer…
A consequência foi a natural. Um trabalho mal feito é aquele que vem antes do retrabalho. Por ter feito mal feito, tive que fazer de novo, e agora bem feito, se quisesse manter o emprego. Bem feito!
Após entregar o segundo trabalho, agora satisfatório, ainda com uma dose de revolta nas entranhas, ainda tive que ouvir, do arquiteto Wilson, a preleção sobre a importância do capricho, o valor do empenho, o significado do comprometimento, o conceito da excelência, entre outros ensinamentos travestidos de reprimendas. Afinal, é esse o papel de um estágio. O aprendizado na prática. O contato com a hora da verdade da profissão. Como estagiário, eu não estava lá para aprender a desenhar, mas para aprender a ter capricho.
Passadas várias décadas, a frase do arquiteto continua reverberando nas paredes de minha caixa craniana. “Tudo o que merece ser feito, merece ser bem feito”. Aquilo que não merecer ser bem feito, não precisa ser feito. Ninguém vai sentir falta, acredite. Se fizer, faça bem feito.
O capricho é mais que um conceito. É um valor. É aquele “algo mais” que diferencia o comum do especial, que faz com que um serviço, quando comparado com outro, um dos dois seja considerado medíocre. O capricho é o que agrega valor, que faz com que um produto possa ser vendido um pouco mais caro, e que seja cobiçado. O capricho do padeiro é a causa da fila na padaria. O capricho do marceneiro é o que lota sua agenda. O capricho do cozinheiro é o que gera a espera no restaurante. Pessoas caprichosas são joias raras, desejadas, garimpadas, admiradas, respeitadas.
Muitos anos depois, já trabalhando com educação corporativa, me defronto mais uma vez com a questão do capricho. A principal causa de demissão, descubro, não é a incapacidade para fazer um trabalho. É a indisposição para faze-lo bem feito.
Chama-se de “sub-desempenho satisfatório”, um comportamento recorrente, muito comum em todos os lugares. É o desempenho de um trabalhador, em qualquer área, que se contenta com satisfazer as condições mínimas para não ser descartado. Sabe aquele funcionário que busca apenas não receber uma queixa do cliente ou uma bronca do chefe? Ele não está interessado no elogio, só não quer a crítica. Não está visando a promoção, só não quer perder o emprego. Como o garoto que que apenas passar de ano, e para tanto, média 6 é suficiente. Para que estudar para tirar nota máxima? A nota média passa igual, afinal de contas…
Eu não quero um atendimento nota 6. Chega de mediocridade. Quero nota 10. Estou cansado dos desatenciosos, dos desleixados, dos medíocres. Quero nota 10 no taxi, nas calçadas, no restaurante, na repartição pública, no médico, em casa, na política, nas relações humanas. Não é difícil, acredite. Dá o mesmo trabalho, e muito, muito, mais satisfação. Para ambos os lados.
O capricho é um valor, mas é mais do que isso. É uma virtude. Uma qualidade que diferencia e que eleva a condição do humano. Pessoas caprichosas são, definitivamente, necessárias. São elas que inspiram outras, que promovem o crescimento, o bem-estar, a verdadeira essência das pessoas, que não são, ou não deveriam ser, como os animais, que se contentam com o mínimo necessário à sobrevivência física. O homem inventou a ciência, a arte e a filosofia, para viver melhor, para dar uma pista da razão da existência, e para tornar esta mais suportável.
Caro arquiteto Wilson, não nos vemos desde então, e acredito que nem nos lembremos um do outro caso um dia nos encontremos. Mas você fez a diferença em minha vida, para sempre. Nunca mais consegui fazer algo, que merecesse ser feito, sem que bem feito o fizesse. E se aconteceu, ouvi sua mensagem, que está em meu arquivo pessoal, irremovível. Grato pelo capricho de sua bronca…
 
Eugenio Mussak escreve para Vida Simples, diz ele, porque é uma revista que merece ser feita, e ser lida, com capricho.

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