ARTIGOS

Acabo de chegar a Belo Horizonte. Já no hotel, como ainda tenho algumas horas antes da palestra para um encontro dos produtores de leite de Minas Gerais, sento-me no quarto do hotel para escrever o artigo para a Vida Simples.
Como sempre, é preciso escolher um tema, entre tantos que habitam a mente de um colunista que escreve sobre o comportamento humano, percorrendo os caminhos sinuosos que passam pelas angustias e também pelas alegrias que nos fazem, como diria o Friedrich, “excessivamente humanos”. São muitas as ideias, colhidas pelo caminho, e que nascem das observações do mundo, dos sentimentos de meu próprio peito, e também das sugestões de leitores, amigos, e de minha principal musa inspiradora, que vive ao meu lado há exatos 16 anos, completados, exatamente, hoje, no dia em que escrevo.
Por um instante, a tela em branco do computador me olha. Retribuo o olhar, e ficamos em silêncio por alguns instantes. Depois, como que envergonhado por não tomar a iniciativa, levanto a cabeça, no gesto natural de quem busca, no alto, a organização dos pensamentos. É quando meus olhos se detêm no quadro que está acima da escrivaninha. Na verdade, é uma foto. Sépia. Um pedaço de muro ornado, sugerindo o período colonial mineiro.
Em sua superfície, algo que parece um adereço, mas na verdade é um símbolo da infâmia: um cravo com uma argola, da qual pendem duas correntes curtas com algemas nas extremidades. Muito provavelmente um instrumento de tortura ou de submissão de um escravo. Fico pensando no paradoxo do encontro da beleza com a vergonha. Abaixo da foto, o nome do autor, Rodrigo Azevedo, e o local, Mariana, MG.
De imediato minha mente viaja para aquela localidade, onde aconteceu o maior desastre ambiental de nossa historia recente. Minha imaginação cria, num instante, enredos sobre as famílias que habitam – ou habitavam – as cercanias de Mariana, que já foi capital das Minas Gerais, e de todas as pequenas localidades inseridas na rica geografia dos minérios.
Imagino pessoas encerrando mais um dia de rotina, de cuidado dos animais de sua propriedade, donas de casa já preparando a janta da família, homens cansados voltando da lavoura, ou da mina, crianças saindo da escola, barulhentas. E de repente…Sim, de repente, quase instantaneamente, a onda marrom, insurfável, veloz, implacável, aparece, destruindo lavouras, casas, vidas e sonhos. Tudo ao mesmo tempo…
O tsunami da Indonésia comoveu a todos – e com justa razão. Foi divulgado pelo mundo e deu origem a uma produção de Hollywood. Já, Mariana, desaparece lentamente como memória. Não teve a mesma dimensão, o mesmo alcance ou a mesma publicidade?
Neste momento de reflexão que precede a escrita procuro a palavra certa, aquele que me conecta diretamente com Mariana, que explica meu sentimento, que justifica uma elaboração do pensamento. E a encontro… A palavra é: descaso.
Por definição, descaso é não fazer caso, não dar importância, deixar “para lá”, considerar secundário, menor, desinteressante, não digno de nota, insignificante, indiferente, inferior, sem valor, algo que passa despercebido. Comportamento próprio de quem age com indiferença, com ausência de consideração, de cuidado, de respeito. O que pode haver de mais denunciador da pobreza de espírito do que o descaso?
Não quero aqui fazer uma análise da tragédia de Mariana, das razões que levaram a barragem a se romper. Nem quero avaliar o impacto do desastre, a dor dos que perderam familiares, lares, animais, lavouras e terras que só serão recuperadas em séculos. Também não quero ficar falando sobre o assoreamento dos rios, a alteração da qualidade da água, a perda de terras de lavoura, a morte de animais terrestres e aquáticos por asfixia.
Também não quero lembrar que Mariana foi apenas o epicentro, mas que dezenas de municípios mineiros foram atingidos, além da lama atingir até o litoral do estado do Espírito Santo, em uma área equivalente a dez municípios de São Paulo, o maior de nosso país. Não quero falar disso. Nem quero emitir julgamentos – para isso existe a lei. Só que é impossível, desculpe lá, não pensar em descaso quando a segurança, por via da lógica, demonstra não ter sido suficiente.
Se o descaso não fosse apenas um substantivo, se ele fosse uma pessoa, como seria? Alta ou baixa? Onde moraria? Teria endereço fixo ou seria nômade? Quando tento materializar sua imagem não posso não pensar no quadro de Goya, Saturno comendo a su hijo, em que o personagem da mitologia romana aparece em sua pior forma, aterrador, cruel, feio. Imagino o descaso assim, como o pintor espanhol imaginou o drama da finitude da vida, que é especialmente cruel para os que dedicaram sua existência a colecionar tempos não vividos. Para mim, o descaso tem aquela cara.
Observe seu entorno. Preste atenção nas relações, no estado das coisas públicas, das ruas e praças, em como os casamentos se desenrolam, em como as pessoas cuidam de sua saúde, se seus corpos, de suas roupas. Pense nos focos de atenção dos políticos. Na disponibilidade dos funcionários, no respeito das pessoas nas filas. No volume do som dos carros, no tamanho da grama nos canteiros, nas fachadas das casas. Observe se as pessoas juntam o cocô de seus cães nos passeios diários. O que vê? Descaso ou cuidado?
Sim, o oposto do descaso é o cuidado. A dimensão essencial às pessoas, suas relações e conquistas. Cuidar é a atitude humana mais nobre, quando percebemos que o cuidado é essencial à vida. O cuidar é o ato que transforma uma mulher em uma mãe. É a principal memória da infância, é o que nos torna verdadeiramente humanos. Cuidar é nobre, essencial, belo, indispensável e imprescindível.
Voltando aos mitos, Cuidado seria um deus grego que, em visita a Gaia, a deusa da Terra, esculpiu com barro uma nova criatura, que ganhou vida pelo sopro de Júpiter. O novo ser foi então batizado com o nome de Humano, pois havia sido feito de húmus, a terra fértil.
E Cuidado sabia que não poderia abandonar por um instante sua obra, pois, caso isso acontecesse, a vida e a matéria se separariam. A vida voltaria para Júpiter e a matéria para Gaia. A nós, seus descendentes, recebemos esse legado e essa missão. Tudo o que cuidarmos será mantido. Tudo o que for entregue ao descaso, morrerá.
O descaso não é uma opção. Não é da paz. Não é bem-vindo. Quando ele está presente, o cuidado não está. E também não estão a ética, o humanismo, a inteligência e o amor. Não ao descaso. Viva o cuidado. E viva Mariana!
Eugenio Mussak escreve neste espaço desde o começo da revista. Sempre com muito cuidado…
 
 
 
 
 

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Mariana e o descaso

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